Era 1993, um tempo em que a ousadia imprimia nas minhas entranhas sonhos novos. Foi a primeira vez que inscrevi uma crônica em concurso literário e encarei o risco de vencer com meus escritos.

Eu  começava a parir o momento do livro que, 12 anos depois, ousei publicar. Sozinha e nua no leito das palavras.
A crônica que deu prêmio e título

Trinta e sete anos. É um revertério em todas as concepções biológicas, mas não do ponto de vista do sentimento humano, nascer com esta idade. Abrir os olhos para a vida e descobrir-se pessoa, dando seu primeiro vagido. Retumbante perante o mundo, ensurdecedor para ouvidos surpresos, imprevisto para os desatentos com a gestação que se operava dentro de mim, num processo de renascer que estava latente, pré-concebido, mas aguardando ainda forças de um parto psicológico em que a maturidade é mãe, e filha é a nova mulher que quero ser.

O nascedouro de mim mesma não é em cima de lençóis frescos. Trago acumuladas noites insones sobre uma cama vazia em que só eu me abriguei, feita de ausências e de silêncios, em que me revirei solitária, dias e dias a fio.

As luzes que me iluminam o nascer não estão alinhadas no teto do quarto. Brilha a minha ânsia de uma felicidade que sonho, que ainda desejo ter, não obstante a negritude dos caminhos que eu percorri.

Não há quem me assista neste trabalho de parto emocional, mas a força que me faz nascer é gigantesca, oriunda das entranhas de mim mesma, em que salto do ventre em que me escondi para a vida que quero viver. Nasço de mim com as experiências que tive, e com as quais aprendi. Sou resultado e resposta de tudo quanto enfrentei, daquilo que eu sofri, das lutas que empreendi, das mágoas que acumulei, dos erros que cometi, dos sonhos que acalentei e da ousadia que me faz mudar, buscar caminhos, alterar a rota e renascer, como quem vem ao mundo pela primeira vez.

Não jorra sangue neste parir de mim. Ele vibra em meu corpo quente e ansioso, sem medo de querer e de assumir todas as energias e de viver todas as carícias. Estou pelo avesso, reverso do que fui nas minhas angústias insolúveis, oposta a todos os medos que me trancafiaram por anos incontáveis e não vividos. Assumo o lado contrário de sofrimentos que não desejei ter, mas que acatei, submissa e desencorajada. Reverti minhas sinas e desacatei meu destino para cumprir outra trilha, a revivescer.

E cultivo, olhos abertos para um mundo que quero descobrir, anseios novos, emoções múltiplas, objetivos renovados. Estive grávida desta nova pessoa durante a infância que não vivi, na adolescência aprisionada por conceitos que não discuti, na idade adulta que me subjugou à vida que compuseram para mim. E descubro, com o coração aos pulos, que ainda há tempo de existir a pessoa que desejo ser. Sem as amarras do medo que não me permitiam ousar. Sem receios de enfrentar meus desafios. Sem incertezas sobre o que quero buscar. E sabendo que posso descobrir-me inteira, apesar de todas as dores que vivi.

O cordão umbilical que se rompe solta os grilhões que, antes pesados, agora são frágeis. E percebo que tudo depende de mim. Contentar-me com a sobrevivência tépida de quem se conforma com a desilusão ou viver a coragem de fazer-me feliz.

"Parto de Mim" - 1º Lugar Crônica

Concurso Literário Felippe D’Oliveira
Santa Maria – RS – 1993

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