Tem gente que se queixa demais da vida! Tudo, para essas queixosas, é árduo, tudo é difícil. Mesmo o que é simples ganha status de missão impossível. Transformam o copinho d´água numa tempestade, fazem qualquer palito virar pau de canoa, e meia palavra substitui o discurso, quando se trata de plantar o medo. Queixam-se de tudo, do tempo, da família, do governo, do divino, de si mesmas. Não dão um passo sem pisar no pessimismo. Não fazem qualquer coisa com leveza. Não falam nada alegre ou tolo, que seja. São sisudas como o seu jeito de levar a vida. Tudo, para elas, é impregnado de dificuldade. Mal conseguem erguer o próprio peso da cama, de onde se levantam reclamando da noite mal-dormida, é claro. Ou dos sonhos que tiveram. O banho está quente, a comida está fria; a vida está morna. Tudo é chato, aborrecido, sem graça. O que é pior, tudo é sempre mais difícil para elas do que para qualquer mortal.
Ou eu sou otimista demais ou elas são pessimistas além da conta. Tenho me questionado sobre o que eu acho realmente difícil fazer, superar e vencer. Ou as dificuldades são pequenas ou eu sou forte, não sei. Ou sou dura na queda ou o tombo nunca é feio demais para mim.
Na realidade, há coisas que me são extremamente difíceis. Apesar delas, sigo, bem-humorada. Achar um endereço é mais difícil do que decorar fórmulas matemáticas, nada fáceis para minha memória seletiva, que guarda só o que gosta. Sempre erro o caminho, senão na ida, com certeza, na volta. Cachorro-quente: é possível comer sem ficar lambuzada? As batatinhas sempre escapam, quando não o molho, que borrifa por entre os dedos. E onde se esconde a elegância quando se cai do salto na frente daquele homem que era uma chance? Como se abre o saquinho de catchup? Qual é a medida do buraquinho na lata de azeite? E como se limpa o galheteiro, com aquele monte de furinhos? Chupar manga sem se sujar, quem consegue?
Quem selou as garrafas de água mineral? As que eu abro, sempre me dão banho a jato. Lata de cerveja bem gelada, como abrir sem estourar? Por que colocam aquele lacre vermelhinho nos pacotes de bolacha se eu nunca acho a ponta? E o suco, que nas minhas mãos sempre esguicha, quando vou abrir a caixa? Assim também o leite de caixinha, trucidada com a faca, porque eu nunca acho a tesoura, e essa é outra dificuldade. Será que resolve abrir do outro lado para não sair o leite? Falar ao telefone com educação quando do outro lado alguém usa o gerúndio que se odeia, isso é difícil. Como se abre o celofane do CD? Dá para trocar pneu e ficar com as mãos limpas?
Extrato de tomate não devia sair de repente do pacote, quando a gente usa. E qual é o ponto ideal do docinho brigadeiro? Dá para sair do chuveiro sem molhar o chão? E como se mantém o sabonete seco, sem aquele aspecto melado? Como não entupir o ralo, apesar daquela peneirinha? E na cozinha, como evitar que as sobras desçam ao tempo em que se solta a água? Onde eu aprendo a jogar o lixo por cima do muro e acertar a cesta? Quem tem manual que acabe com as divergências sobre como apertar o creme dental? E como se acha a ponta do fio dental – não o maiô – quando ele escapa? Como se fecha o zíper que está nas costas e a gente, só? Por que o corpo não responde quando se precisa levantar mais cedo e aos sábados se tem insônia, mas nada para fazer?
Como não titubear se alguém pergunta: fechaste a porta? Como não morrer de saudade do amor que nos deixou? Como esquecer dos beijos que hoje são lembranças? O que se faz quando a lágrima vem, mas a pessoa, não? Como rasgar a foto de quem rasgou o nosso coração? Onde está escondido o amor da gente, que não veio, e a vida acabou em solidão? Como esquecer do perfume que nos desvaneceu, das palavras que nos inebriaram, das juras de amor em que acreditamos? Como não levar sustos diante do inesperado? Como crer depois da desesperança? Acreditar outra vez, depois que nos traíram? Como amar depois das perdas e de tanto adeus, ou apesar dos silêncios? Como não padecer da ausência do nosso grande amor?
O que é realmente difícil nesta vida? A gente supera bem as coisas grandes. As pequenas são as que infernizam. Tudo isso é realmente muito difícil, mas não impossível. Basta a vontade de viver. Pois quem vive por amor à vida – não a coisas e pessoas – tira bons risos das dificuldades. E segue. Feliz.
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